Até o ENEM reconhece a violência contra a mulher – e isso é importante, sim!

Antes da tarde desse domingo, estudantes do Brasil inteiro provavelmente passaram vários meses do ano especulando sobre o tema da redação do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio – e porta de entrada para a maioria das universidades federais. Poderia ser crise hídrica, poderia ser intolerância religiosa, poderia ser crise política, ativismo nas redes; considerando a imprevisibilidade de um exame como o ENEM, poderia até mesmo ser cobrado “as causas e consequências da ameaça de extinção das abelhas”. Mas nada disso foi tema da redação. Em 2015, o tema foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

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“Jurassic World” – à base de nostalgia

Depois de um delay considerável, pude assistir “Jurassic World”, o novo episódio de uma das maiores franquias do cinema mundial e alguns dos meus filmes favoritos. O resultado não poderia ser mais decepcionante. Quatorze anos depois do último Jurassic Park, minhas altas expectativas enfrentam um filme raso, que coloca toda a sua base em efeitos especiais e falta de criatividade disfarçada de homenagem. Pior, tudo isso com a desculpa de ser um “filme pipoca”, ou seja, que serve ao puro entretenimento.

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“Polytechnique” (2009) – e por que odiamos o feminismo?

No dia 6 de dezembro de 1989, Marc Lépine, de 25 anos, adentrou a escola Politécnica de Montreal armado. Na classe de engenharia mecânica, separou homens e mulheres em dois grupos, ordenou que os homens deixassem a sala e, depois de gritar “vocês são todas feministas” várias vezes, assassinou todas as mulheres presentes na sala com tiros à queima roupa. Percorreu o prédio por mais alguns minutos, atirando em outras mulheres e, no fim, se suicidou com um tiro na cabeça. Marc assassinou 14 moças naquele dia antes de tirar a própria vida. O ocorrido foi o primeiro grande assassinato em massa do Canadá, e até hoje é considerado o maior incidente do tipo na história do país.

Vítimas do massacre

Em 2009, vinte anos após o ocorrido, foi lançado o filme “Polytechnique”, do então estreante Denis Villeneuve. O filme acompanha o 6 de dezembro pela perspectiva de dois dos que viriam a ser sobreviventes do atentado: Jean-Françoise e Valérie. É por meio desses personagens e da figura do próprio Marc que, ao contrário de companheiros temáticos como “Elephant”, “Polytechnique” foge de realismos sanguinários e nos leva fundo ao instinto de sobrevivência humano e questões sobre a bagunçada sociedade em que vivemos – mesmo depois de 25 anos. Continuar lendo

Lágrimas de cervo – “Sweet Tooth”

Somos fascinados por um mundo pós-apocalíptico. Tão fascinados que nosso meio cultural está, provavelmente, mais que saturado com obras sobre o assunto, inclusive na literatura – as séries distópicas juvenis que o digam. Então, já chegou a cansar a cabecinha daqueles que já leem esse tipo de narrativa há tempos, não? Bem, talvez não. Vez ou outra, em meio a clichês que dão mais sono que ânimo, encontramos obras que conseguem nos fazer admirar os clichês e vê-los como algo genial. É o caso de Sweet Tooth, graphic novel de Jeff Lemire.

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O Evangelho segundo Mark Twain – “Diários de Adão e Eva”

É engraçado quando você lê a Bíblia pela primeira vez e, em meio a palavras descritivas e de sabedoria, você tenta dar vida àqueles personagens. Quero dizer, é tanta gente que passa por tanta coisa mirabolante, mas nós nunca temos certeza de como eles sentiram; eles não conversam conosco – e acho que isso é uma das coisas que mais me incomoda na Bíblia, dentre todos os outros incômodos óbvios. E no meio dessa gente toda, pessoas que parecem ter as emoções à flor da pele, talvez os personagens mais intrigantes sejam os fundadores do mundo humano: Adão e Eva. Como sentiriam-se os primeiros seres humanos, no Éden e fora dele? Como se relacionavam entre si e com o mundo?

Mark Twain, um dos maiores prosadores dos séculos XIX e XX também deixava-se inquietar por essas questões, aficionado que era por discussões acerca da religião. Nos fins do século XIX, Mark escreveu uma série de sátiras bíblicas que eternizam uma imagem romantizada de Adão e Eva; algumas dessas sátiras são compiladas no livro “Diários de Adão e Eva”.

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Não tenho boca e preciso gritar, de Harlan Ellison

Dentre todas as possibilidades de um mundo pós-apocalíptico que a ficção já foi capaz de imaginar, talvez a mais perturbadora seja a dominação das máquinas – como em Matrix ou Ghost in the Shell. Não que as consequências sejam tanto diferentes, mas é a sensação de impotência e culpa que fica marcada: a destruição do mundo foi criada – normalmente – pelos próprios humanos, que deram origem a um ser com habilidades quase que ilimitadas e que, ao longo do tempo – e, talvez, de maneira inexplicável – adquire sentimentos humanos. Emoções humanas já são danosas limitadas apenas ao nosso mundo, imagine quando ampliadas para uma máquina “destreinada” nesse quesito, capaz de fazer estragos muito maiores.

Seguindo essa premissa horrorizante, Harlan Ellison (um dos maiores autores da ficção científica que, no entanto, não tem nenhuma obra traduzida para terras tupiniquins) escreveu, em 1967 o conto “Não Tenho Boca e Preciso Gritar”, que intitula uma coletânea de outras histórias curtas.

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Perfect Blue (Satoshi Kon em 1998)

A realidade é manipuladora. Assim como no livro de Roberta Sparrow (“Donnie Darko”), no qual uma geleiazinha escrota nos guia por caminhos diversos com o objetivo de manter o universo em harmonia, quase a mesma coisa acontece conosco nesse nosso mundo, com regras diferentes. Sou adepta do Determinismo apenas quando me convém, confesso, mas sempre podemos dizer que é a realidade – aquilo que pensamos ser a realidade, claro – que nos faz quem somos. E quando isso se perde, nos perdemos também; quando isso se perde – e acontece, de tempos em tempos – ficamos sem ter pra quê ou, principalmente, o quê. E isso é que é Perfect Blue.

De forma geral, a primeira direção de Satoshi Kon traz um enredo bastante simples: Mima Kirigoe é uma pop idol que deixa o grupo CHAM!, no qual canta e dança e faz todas as coisinhas que as idols fazem, para se tornar atriz. E, de forma geral, a simplicidade praticamente acaba aqui.

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